Procedimentos na Escola em Casos de Bullying

Procedimentos na Escola em Casos de Bullying

Bullying é o contexto de humilhação ou constrangimento dirigido a alguém em situação de fragilidade social ou emocional. Geralmente se manifesta em repetidas ações de isolamento, humilhação, intimidação, ameaça ou até agressão física.

Pode ser praticado por uma pessoa – geralmente de maior porte físico ou liderança – ou por um grupo de pessoas.

O bullying ocorre com maior frequência em escolas.

  1. O Contexto do Bullying

Dentre as diversas motivações do bullying, podemos destacar três principais:

  1. a) preconceitos dirigidos a pessoas com deficiência ou características físicas especiais. Crianças obesas são a vítima mais frequente de bullying.

  2. b) a inveja dirigida a pessoas com atributos ou capacidade acima da média: alunos aplicados, pessoas bonitas, etc. Por incrível que pareça, meninas ou meninos muito bonitos são frequentemente vítimas de bullying nas escolas. A inveja pelo cabelo bonito ou feições do rosto geram perseguição e até violência de colegas.

  3. c) estímulos do grupo em razão da influência da multidão, ou seja, crianças deixadas à própria sorte, sem a supervisão de um adulto, podem iniciar processos de agressão mútua, inclusive bullying.

É fundamental analisar também o contexto emocional, social e familiar da VÍTIMA DO BULLYING.

Nem tudo o que desagrada uma criança é bullying. Não gostar de um colega, ou não querer ser amigo de alguém, não configura bullying, afinal as pessoas podem ter empatias ou antipatias naturalmente.

Frustrações ou tristezas são experiências necessárias na vida de todo ser humano, inclusive crianças e adolescentes. É natural (e até saudável) haver conflitos ou discussões entre jovens, em razão do convívio ou pela disputa por atenção ou aprovação do grupo ou dos adultos (pais, professores, etc.).

É fundamental olhar para todo o contexto.

É possível que um mesmo comportamento gere bullying em um contexto, e em outro, não. Por exemplo, uma criança pode receber o apelido de café – pelo fato de ser negra – e não se sentir humilhada ou diminuída. Ainda que o apelido possa ser questionável em sua motivação, não haverá bullying. Mas, uma outra criança pode se sentir humilhada com o mesmo apelido, e, neste caso, haverá bullying.

É preciso estar atento para o fato de que muitas crianças podem aceitar situações desonrosas como única forma de lidar com uma situação de bullying.

Caso real – Ao ser perguntado seu nome, a criança de 8 anos de idade respondia: “meu nome é babaca”. Na verdade, um grupo de adolescentes de sua vizinhança havia dado este horrível apelido para a criança, e ela o havia aceitado, como única forma de lidar com a humilhação da turma.

  1. O Agressor

É comum tratar o agressor ou agressores como a causa do bullying, acreditando que ao aplicar punições disciplinares o problema será solucionado.

Infelizmente, muitas vezes, o bullying é resultado de um ambiente propício a hostilidades, em que terceiros podem estar, conscientemente ou não, estimulando a prática injusta.

Caso real – O aluno de 12 anos era o incentivador de bullying praticado contra um colega de sala de aula. Ao investigar o caso, descobriu-se que a mãe do agressor, uma psicóloga, era a maior estimuladora da atitude do filho, em razão de desavenças com os pais da vítima.

 

Um exemplo muito comum são as escolas onde há estímulo excessivo à competição entre alunos.

Caso real – Os melhores alunos de uma escola eram condecorados formalmente e recebiam muitos prêmios. Os demais alunos eram ignorados. Com o passar do tempo, os alunos começaram a perseguir e até agredir os alunos premiados.

 

Isto também pode ocorrer em famílias, quando os pais elogiam de forma exagerada um filho com bom comportamento ou rendimento escolar. Não há nenhum problema em elogiar os jovens, o importante é incluir todos no processo de estímulo ou premiação, e não apenas os melhores.

É comum, também, que o autor da violência seja ou tenha sido vítima de abusos. A atitude agressiva com colegas pode ser resultado da situação de violação de direitos, geralmente encoberta.

Caso real – O adolescente aterrorizava os vizinhos menores com ameaças de agressão física. Ao investigar o caso descobriu-se que o agressor era vítima de abusos físicos praticados pelo padrasto.

 

  1. Agressividade não é Bullying

É preciso considerar um dado biológico fundamental: em média, meninos têm 8 a 10 vezes mais testosterona do que as meninas.

Testosterona é o hormônio masculino, e implica mais força, vigor, agressividade. Meninas também têm este hormônio em seu corpo, porém, em proporção bem menor.

O que nos interessa aqui é a consequência comportamental desta natureza biológica dos meninos: eles tendem a ser muito mais agressivos, viris e agitados.

É preciso respeitar a natureza biológica dos meninos.

A vítima

Atitudes da vítima, criança ou adolescente, podem estimular o bullying. Embora nada justifique esta prática, é preciso compreender que comportamentos extravagantes provocam a imediata reação das pessoas.

Caso real – A criança de 6 anos de idade se vestia com peças de roupa com caveiras ou símbolos da morte. A maioria de suas roupas eram sobre este tema, o que  chamava a atenção de todos, colegas e adultos.

Caso real – O aluno de 11 anos de idade deixou seu cabelo crescer até a cintura. Este fato era motivo de brincadeiras e  provocações entre os colegas.

É preciso orientar as crianças e adolescentes, estimulando-os a atitudes e comportamentos que os protejam de situações constrangedoras. Mas quem adota comportamentos extravagantes deve estar preparado para a reação natural das pessoas: “quem põe uma melancia na cabeça vai chamar a atenção das pessoas.”

Em muitos casos, a reação emocional da vítima (tristeza, etc.) não é decorrência do comportamento dos colegas, mas de sua incapacidade em lidar com os sentimentos e conflitos naturais da idade.

É muito importante acompanhar o desenvolvimento emocional da criança ou adolescente para perceber:

  • a) se a criança consegue lidar com os conflitos da sua idade de forma equilibrada, reforçando este comportamento. (elogios em público, etc.); ou

  • b) se a criança não está sabendo lidar com os conflitos. Neste caso, é importante orientar e principalmente refletir em conjunto com a criança, estimulando-a a pensar sobre seus sentimentos negativos.

 

  1. Família e Escola.

As famílias e professores devem ser cuidadosas ao falar sobre a intimidade das crianças e adolescentes. Em nossa experiência, uma das causas mais frequentes de deflagração de bullying é a revelação indevida a terceiros de fatos da intimidade da criança ou adolescente, especialmente por pais ou educadores da vítima.

Uma piada sobre um aluno pode induzir toda a turma a ridicularizá-lo. Correções disciplinares muito intensas e em público, também. Em escolas, é muito comum observar  professores dizendo a alunos: “Só podia ser você, fulano”, referindo-se a uma possível atitude inapropriada. Muitas correções ou comentários em público sobre um aluno podem incentivar a prática do bullying contra ele. Situações corriqueiras podem se transformar em graves problemas, se não guardarmos segredo da intimidade de uma criança.

Caso real – O aluno de 10 anos de idade era vítima de bullying na escola. Seus colegas o chamavam todo o tempo de gay e veadinho. Se sentindo humilhado, a criança se tornou agressiva e não queria mais ir à escola. Ao investigar o caso, descobrimos a origem de tudo: a mãe da vítima foi muito descuidada e revelou para várias pessoas, em reunião na escola, que seu filho “fazia terapia com psicólogo por causa de problemas emocionais”. Esta informação sobre a intimidade da criança foi a principal causa do bullying.

Correções coletivas impessoais também são muito injustas. Em escolas, é comum os professores repreenderem toda a turma de alunos em razão de um ato de indisciplina praticado por apenas um aluno. Os alunos que não praticaram o ato podem querer se vingar contra o autor da indisciplina.

Caso real – Ao invés de se dirigir ao aluno que praticara uma indisciplina, a professora repreendeu toda a turma dizendo: “Não quero mais ninguém jogando papel da janela. Isto é coisa de gente mal-educada.”

O mesmo princípio se aplica à punição de um grupo pela atitude de alguém que não se conseguiu identificar.

Caso real – A professora puniu toda a turma com a proibição de recreio no intervalo de aulas, em razão de indisciplina praticada durante a aula por aluno não identificado. Os alunos passaram a perseguir o autor da indisciplina, em razão da punição injusta.

  1. Conclusão.

É certo que devemos proteger as crianças e adolescentes. Mas também é preciso estimulá-los a amadurecer o seu pensar e agir.

Ao lidar com conflitos torna-se imprescindível ouvir e compreender as razões e justificativas de todos os envolvidos, inclusive do agressor.  É importante conduzir os envolvidos a um entendimento sobre seu comportamento e as consequências de suas atitudes. O agressor e a vítima de bullying estão em um mesmo processo de aprendizagem para a vida. Os conflitos são ótimas oportunidades para o amadurecimento de todos.

É fundamental agir rápido e de forma justa, pois situações menores podem se tornar graves problemas, caso não haja uma ação eficaz imediata.

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